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quinta-feira, janeiro 15, 2015

21 Andares

Como sempre, justo quando estava em meio às mais triviais atividades e com os pensamentos mais irrelevantes, à questão lhe veio à mente; morte, o fim, o nada?

Num piscar dentro de sua cabeça molhada pela água escassa da cidade, ele entreviu-se no futuro, velho e encarquilhado, justamente no momento final de seu próprio último suspiro.

E ele sentiu todo o desespero do velho que passara a vida sem acreditar em nada, temendo pelo fim, tal qual o zero, absoluto. E também o desespero do outro velho que sentia culpa por querer acreditar em algo - ou em tudo - exatamente como julgava fazer toda a humanidade, justamente pelo medo da extinção do próprio umbigo, ou como preferiram os eufêmicos e educados, do pensamento mesmo.

A dor era tamanha, o desespero era tanto, que ele não podia deixar que os velhos passassem por isso, mesmo que nalgum futuro esquecido pelo tempo e a criação.

Tinha que fazer algo, tinha que evitar a dor deles.
Tinha que abreviar os problemas de seus futuros.
Tinha que ser prático por eles.
Tinha que tomar uma providência para si mesmo e mesmos.

E ele nem chegou a perceber o quão era duro o chão ao final dos 21 andares...

quarta-feira, maio 07, 2014

Esfinge

Era noite de happy hour no Além, e a deusarada toda se reuniu no bar Mythos & Bacantes para jogar conversa fora e, é claro contar vantagem.

Depois de horas e mais horas de um desfile de peripécias principalmente sexuais, sem aparecer alma viva pra confirmar as versões divinas, levanta-se a Esfinge da mesa ao lado e brada:

_ Tão vendo aquele povo ali na mesa do canto?

(E lá estavam campeões olímpicos, musas, reis e até um bobo da corte, que coraram e soltaram risinhos juvenis ao perceberem que a Esfinge falava deles.)

_ Comi tudim!

E então os deuses se calaram...

Nota:
- Decifra-me, ou devoro-te!

terça-feira, maio 06, 2014

Sonho em Três Atos

Meados da década de 40, a Europa em meio à Segunda Grande Guerra. Sou convocado então para participar de uma missão especial, nomeada como “Drop Shit Over Those Shits” (O nome que pegou mesmo foi Toró de Merda, o que tem mais personalidade afinal!), que consistia em jogar baldes e mais baldes de excrementos sobre as cabeças dos soldados atrás das linhas alemãs. Ela era a piloto – o que fazia com grande perícia –, e eu era o baldeiro, o que fazia com grande orgulho!

[Assistir a CSI e Bastardos Inglórios na sequência deu nisso]

***
Estou voltando do açougue, com um pacote de carne embrulhado com esmero. Pego uma curva errada e eis que me encontro no gol do Palmeiras, tendo que cobrir a ausência do goleiro titular. A situação estava complicada, tomo um gol logo em seguida – afinal, o que eu estava fazendo por lá? –, mas conseguimos virar e ganhar o jogo, estranhamente com uns 5 jogadores ao menos. Acaba o jogo, e vejo um nazista fugindo com o meu pacote de carne. Mas que bastardo!

[A culpa aí está em Top Chef – posso jurar que emprestei o pacote de carne que um participante comprou – e o tanto que falam sobre futebol em rádio e TV]

***
Invado com a cara e a coragem o quartel general dos nazistas (estranhamente parecido com algum galpão genérico na Zona Norte de São Paulo, vai entender...). Como sangue frio aparentemente é meu nome do meio (Hahaha, sei!), simplesmente caminho ante olhares atônitos, chego à geladeira do quartel, pego meu pacote de carne e vou embora. Quando o sangue frio já estava praticamente fervendo, felizmente sou resgatado por minha piloto de fuga, que dirigia o jipe com a mesma perícia com que pilotava o bombardeiro da missão Toró de Merda.

[Na boa, não faço idéia do que assisti para chegar a isso...]

***
Então acordei, dando risada. Fim!

A Piloto era amiga do Snoopy Aviador, certeza!

quarta-feira, abril 23, 2014

Poesia em preto e branco

Pessoas são poesias, pessoas são poesias... Foi a idéia que uma vez, ainda adolescente, o manteve acordado por noites a fio.

Talvez por conta dos hormônios a turvar os pensamentos, sua platonicidade intrínseca, uma paixonite aguda, ou até mesmo a descoberta de uma grande verdade filosófica, ele passou a acreditar e ver um mundo povoado de poesias.

É claro que o tempo e a adolescência passaram, levando consigo boa parte de seus sonhos quixotescos, mas nisso ele ainda acreditava.

Até que se apaixonou novamente!

Ela era linda e parecia uma poesia completa, e infelizmente ele ainda não a conhecia. Então algo tinha que ser feito sobre isso e ele decidiu lutar contra sua índole platônica!

Ah, mas que infeliz idéia ele teve, ao menos na opinião de seu eu mais covarde: de longe ela era perfeita, então o que de bom existe pra você agora?

Pois aconteceu daquela pessoa tão desejada não passar de um grande repositório de idéias rígidas e pré concebidas. Brinquedo é pra criança, o cosmos é imutável, não vamos questionar a tradição, aquela lá é uma puta, vadia, isso foi sempre assim, não dá pra confiar naquela gente e tantas outras verdades absolutas, com bordas tão definidas, sem nuances ou tons que ele finalmente percebeu o que ela era...

Uma poesia em preto e branco!

A paixão acabou e a tristeza reinou naquela seara fértil, pois doía só de pensar em quão povoado em preto no branco era o mundo; no quão triste era tudo isso, no quão difícil era tudo isso.

E nessa toada sorumbática ele vivia, frequentando bares e cadeias de fast food, até que ouviu uma voz, até que paciente, explicando que não, os brinquedos não eram pros filhos que ela ainda não tinha, mas sim pra ela mesma!

Foi quando ele sorriu e deixou a comida de lado para conversar com aquela pessoa, pois tudo era simples novamente.

Afinal, todas as pessoas são poesias, e, para sua fortuna, ele lembrou que nem todas as poesias são em preto e branco...

Notas do editor:
1- Agradecimentos mui louváveis à incrível sugestão de título da Senhoura Carolina Salles.
2- Ou seja: valeu Carol!!!
3- Agradeçamos aos auto corretores dos celulares, que sempre nos dão ótimas versões da realidade! ;-)

terça-feira, fevereiro 25, 2014

O Proxeneta Escarlate

José Vermelhão caminhava a esmo pelas ruas do centro da cidade, cansado de ver tantas coisas estranhas ao seu redor.

Não, ele não se referia à fauna presente nos botecos, restaurantes, baladas e hotéis da região, pois todos eram, como ele gostava de definir, “gente como a gente, só que mais divertidos”. Ou seja, existiam os bons, os maus, os sem vergonha e demais, só que normalmente eles se levavam mais a sério do que os medianos de escritório que buscavam refúgio em suas tocas entrincheiradas.

Além disso, eles também eram seus clientes e subordinados, uma vez que ele era um indivíduo que cobrava para servir de intermediário em casos amorosos, comandando seu singelo serviço de Correio Elegante. Mas não só comandando; José Lambe-Lambe montava em sua bicicleta-escritório contornada por lâmpadas de neon e saia rodando pelas ruas do centro, ouvindo declarações, pegando bilhetinhos com letras trêmulas, flores embaladas em filmes cintilantes, listas de supermercado e tudo o mais que fosse, para então entregar – ou gritar do outro lado da rua – à diversidade ululante.

_ Rita do Olido, o João Borogodó mandou dizer que te ama!
_ Paulão Maromba, a Claudinha tá te esperando na Bento Freitas!
_ Ana Cláudia, não esqueça da torta de ricota pro Marcel!
_ Geiza, o John avisou pra passar no mercado que acabou a maisena!
_ Bianca Veruska, é hoje hein! – Afinal, às vezes ele entregava mensagens próprias também.

E assim seguia a noite de José Neon Lilás, em suas entregas sempre animadas, formando casais, salvando relacionamentos e tudo o mais, mas mesmo que se divertisse em seu trabalho, as coisas estranhas o deixavam incomodado.

De incomodado, cansado. De cansado, completamente de saco cheio!

Policiais agrediam moradores de rua e travestis com o avançado da hora, políticos só passavam pelo centro à noite, em busca de prazeres secretos, mas nunca viam os problemas à luz do dia. Promessas de revitalização de que nunca saíam do papel, assaltos, destruição, e as pessoas se sentiam cada vez menos seguras à noite lá no centro.

Eles temiam a todos, todos eram perigosos; ladrões, policiais, políticos...

Então José dos Muitos Apelidos decidiu que deveria ser “desconhecido” por mais um. Sem algo novo ele ficaria muito vulnerável, assim como seus clientes e até a Lenita do Copan, então uma identidade secreta seria necessária para cumprir seus anseios, pois ele havia se decidido.

José Amigão iria combater o mal que se instalara no centro!

Voltando para sua quitinete, José Magaiver encontrou um antigo colante vermelho, pegou um short de corrida que não usava fazia uns 20 anos e uma antiga máscara de carnavais passados e sentiu-se estranhamente confortável!

Agora José da Quarta de Cinzas não seria mais José. O Correio Elegante teria que esperar. Mas ele estava tranquilo, pois o amor sempre prosperaria no centro, desde que a violência e tudo que estivesse de errado ficasse sobre controle.

Desde que o Proxeneta Escarlate estivesse em ação!

*******
Nota do Editor:
• Do dicionário Houaiss, “proxeneta”, indivíduo que cobra para servir de intermediário em casos amorosos.
• Sim, Magaiver desse jeito mesmo!

segunda-feira, setembro 02, 2013

A Cidade dos Cachorros Mancos

O pequeno filhote nasceu forte e maior que seus irmãos, para puro orgulho da mãe. Ah, ele certamente cresceria para ser um macho alfa assim como seu pai.

Então, como foi criado como um dos pequenos príncipes, ele achava que o mundo havia sido feito para ele, que a matilha existia para servi-lo; um dia, um dia. Mas havia algo que ele temia como mais que tudo em sua pequena e principesca vida.

Era fato que em sua criação ele havia aprendido que toda a matilha era tão fraca quanto o mais fraco de seus membros. Por isso ele não queria, não podia ser o mais fraco! Ele tinha que ser forte, rápido, esperto, tinha que ser tudo isso para um dia ser o líder que sua mãe esperava.

Todo esse pavor existia por ele já ter visto o que significava ser o ele mais fraco. Um ancião da matilha um dia não tinha mais forças para acompanhar o grupo e foi deixado para trás. Como não estava acostumado àquilo, o filhote parou um pouco para conversar com o velho, achando que todos voltariam. Ao invés disso, ele recebeu uma lição que só os idosos abandonados poderiam passar a um futuro líder.

Nessa hora então o velho contou a ele sobre a sorte que todos os seus irmãos tiveram, incluindo os que morreram logo depois de nascer. Sim, pois todos os que vingaram eram fortes e cresceriam em meio às adversidades. E os que morreram, bem como ele já havia dito, tiveram sorte por não sofrerem nesse mundo cruel ou por não terem que crescer aleijados numa matilha que não os aceitaria assim.

O velho ainda explicou que se algum companheiro de matilha fosse gravemente ferido – especialmente pelas velozes caixas de homens, que chegavam mais rápido e silenciosas do que normalmente conseguíamos reagir – e tivesse o azar de sobreviver ele deveriam ser uma última vez alimentados e enviados para procurar a Cidade dos Cachorros Mancos.

Esse lugar apesar e por mais surpreendente que fosse era uma criação dos homens. Lá, as caixas barulhentas só se moviam lentamente e as pessoas – até mesmo as ruins – não pareciam se incomodar com os cachorros ou com qualquer outra coisa. Haviam lágrimas, flores, lamentos, risadas e até cantoria, havia também comida que sempre sobrava para os cachorros mancos e espaço, muito espaço.

Sim, era um espaço para os párias, para os excluídos, mas ali teriam espaço, liberdade e segurança para viver suas vidas da melhor forma que pudessem. Se conseguissem chegar lá, se conseguissem chegar na Cidade.

O jovem filhote finalmente percebe que a história havia chegado ao final e que o velho estava dormindo. Ou havia desmaiado. Ou estava morto. Será que o final ele havia imaginado? Não importava, pois ele acreditava que tal lugar existisse e muitos diriam que acreditar num sonho era o bastante para fazer com que aquilo fosse verdade.

Quando conseguiu voltar para a matilha, ele contou toda a história para sua mãe. Ela riu e não queria que ele acreditasse nas besteiras de um velho que já devia estar morto àquela altura. Mas isso o entristeceu, pois naquele momento ela sabia o que teria que fazer um dia.

Então, logo que cresceu o bastante para não depender mais de sua mãe e poder desafiar seu pai, o jovem saiu da matilha! E saiu em busca de todos os cachorros mancos que pudesse encontrar, para lhes falar de sua cidade, para lhes falar do lugar para onde eles poderiam ir e viver suas vidas em paz e no ritmo que conseguissem.

Ele saiu para falar a todos sobre a Cidade dos Cachorros Mancos!

quinta-feira, agosto 22, 2013

Ódio

Ah como aquela criança odeia o mundo! Um mundo tão cruel e injusto, sórdido se capaz de vilanias impensáveis por mentes mais pudicas e hipócritas.

Sofridas especialmente por crianças como aquela.

Um mundo de adultos, um mundo de machos, um mundo onde algemas são presas à seus pulsos para dominar seu corpo e sua essência. Para moldar sua mente aos desejos desse mundo perverso, à moral hipócrita de uma sociedade decadente. Aos medos corrosivos de antigos dominadores.

Ah como isso funcionou com milhares e milhares de crianças! Mas com uma criança o resultado foi adverso. Ela não se tornou uma cria perfeita da sociedade hipócrita, mas sim um pequeno monstro predador entre ovelhas submissas.

E ela odeia, odeia, odeia o mundo com todas as suas forças! Ela também odeia as outras crianças que, diferente dela, cresceram como o mundo esperava, suas ovelhas submissas. Mas, acima de tudo, ela odeia do fundo de sua alma pervertida, as crianças que o mundo não conseguiu domar com suas algemas.

Ela as odeia assim, pois as inveja, pois as teme. Ela sabe que só as crianças livres poderiam enxergar sua verdadeira natureza se tivessem a oportunidade. Mais e mais dessas crianças livres vêm surgindo e apesar disso só fazer seu ódio aumentar, ela ainda consegue evita-las.

Mas em seu ódio generalizado ao mundo e todos os seus tipos de crianças, nossa criança estranha precisa se alimentar! E a única forma de saciar a sua fome, desde muito pequena, desde que conseguiu se livrar pela primeira vez das algemas que a prendiam, era matar.

Sim, matar, e a criança não tem medo de admitir isso para ela mesma! Sua primeira experiência com o bichinho de estimação de sua irmã mais nova. Aquela bolinha de pelo não teve chance alguma!

Acontece que isso não era o bastante e a fome não se contentaria com um pequeno animal. Ela precisava de outras crianças e de outras crianças ela se alimentou.

Ah como eram tenras e suculentas as mortes das dóceis crianças algemadas às leis desse sórdido mundo! Tenras, suculentas, fáceis, cansativas, enjoativas.

_ CHEGA! – Gritam seus pensamentos de criança pervertida!

Ela precisa de algo novo e a única coisa nova em nosso mundo são também exatamente as coisas que mais teme: as crianças livres, as crianças que pensam, as crianças que podem enxergar sua alma sórdida e faminta; mas apenas quando elas a encontram primeiro...

Sua explosão havia acontecido logo após uma “refeição” que não a alimentara, e foi com grande choque que ela percebeu que, ao lado de sua última criança dócil, ainda caída ao chão, uma outra criança olhava o mundo de forma diferente. Ela estava visivelmente cansada de tudo aquilo, mas era nítido o brilho em seus olhos que mostrava sua insatisfação com o mundo.

Não, ela não era uma criança pervertida e sórdida como ela. Ela era uma criança livre e, por ser como é, despertou seu desejo!

sexta-feira, agosto 02, 2013

Noites Frias

Havia já bastante tempo que ela se cansara de toda aquela merda no mundo!

Mas seu trabalho – que algumas vezes chamava de maldição – era indispensável a ela e algo do prazer, do ideal, do pouco de bom que ainda via naquela vida não a deixava desistir.

Só que essa era mesmo mais uma daquelas noites em que era difícil, mas muito difícil encontrar sua motivação. A noite estava fria, as muitas horas em que ela ainda teria que ficar em pé naquela rua vazia também não ajudavam em nada.

E a rua estava fazia em termos; mesmo ali, cercada pelas poucas e usuais companhias, ela sabia que milhares de olhos estavam à espreita. Pelas frestas das janelas, pelas janelas dos carros que passavam lentamente, por alguma fresta certamente o assassino acompanhava o desenrolar do que sua facada (ou teria usado um estilete) desencadeara.

Mais uma moça havia sido morta naquela noite. E só naquele mês outras três haviam perdido a vida. Sim, definitivamente viver assim estava cada vez mais complicado...

Quando finalmente teve que ir para a delegacia – ah, quantas noites não perdeu em lugares como esse – ela definitivamente estava exausta. Não queria saber de conversa, não queria ter que olhar para ninguém, não queria ter que estar ali. Se sentia suja, impura, cansada de tudo isso.

Então, em certo momento, um rapaz veio lhe pedir informações. Seu primo havia se metido em uma confusão em um bar e ele não sabia sequer por onde começar a ajuda-lo.

_ Saia daqui seu bastardo! Não vê que estou ocupada demais para ficar dando simples informações a um qualquer! – Mas isso foi apenas o que ela pensou!

Ela era melhor do que isso e ajudou o rapaz. Afinal, algo naqueles olhos brilhantes e inteligentes havia amolecido um pouco seu coração endurecido por noites frias ao relento como aquela havia sido.

Curiosamente, mais ou menos no mesmo horário do dia seguinte, ele passou por lá novamente. Sim, ela também havia voltado para lá – coisas da vida e ossos do ofício afinal! – e eles acabaram por conversar mais animadamente naquele momento. Felizmente nenhuma outra moça havia morrido e isso fazia tudo ficar um pouco mais leve.

E ela se permitiu relaxar um pouco, já que em outras noites o rapaz também apareceu. E eles começaram a se ver também fora dali, à paisana poder-se-ia dizer!

Mas apesar de tudo parecer bem naquele momento, ela sabia que as coisas continuariam difíceis. Sua vida, sua profissão, definitivamente não ajudaria em nada. Sim, ela já havia namorado, mas ninguém realmente a entendera. E havia coisas que ela tinha medo de confessar.

Ainda assim ela continuou; saíram mais algumas vezes e definitivamente aqueles olhos inteligentes e divertidos a haviam conquistado. Além disso ela sentia que algo de criativo se escondia atrás de toda aquela timidez que muitas vezes ele demonstrava.

O tempo passou e finalmente eles puderam passar uma noite juntos! Era difícil conseguir uma noite livre e despreocupada, mas conseguir aquela folga valeu a pena. Mesmo que nem tudo tivesse acontecido como ela gostaria, como ela queria...

E então, na manhã seguinte, ao perceber que ele tinha algo a dizer, apesar de estar com medo. E para derreter a geada que subitamente havia caído no quarto, ela começou a falar:

_ Gostei muito dessa noite (ela havia sim quase gostado muito); tomara que eu consiga logo uma nova folga...

_ Sim, sim, com certeza – ele havia despertado – mas eu preciso te perguntar uma coisa, por favor, não se ofenda!

_ Não, pode perguntar, sem medo...

Nesse momento a geada derreteu quando ela viu o sorriso de canto dos lábios do rapaz.

_ Na próxima vez, será que você poderia... Trazer as algemas?

E ela, feliz, se espreguiçou felinamente, pois sabia que não haveriam mais noites frias como antes.

quarta-feira, julho 31, 2013

Algemas

Quando ela chegou ao escritório o assunto não era outro: o péssimo estado em que aquele rapaz estava, todo roto e com um caminhar vacilante. Muitos sentiam pena da pobre criatura, mas o maior sentimento era um misto de curiosidade e medo, já que ninguém se atrevia a perguntar o que havia acontecido.

Como ela sempre chegasse atrasada, percebeu que naquele ponto muitas teorias já haviam sido levantadas, mas uma ganhava força entre as moças na sala de café:

_ Parece que ele foi parar na delegacia depois de uma briga!

_ Típico desses rapazes com tempo de sobra e miolos de menos...

_ Sim, só pode ter sido isso... E vai saber o que aconteceu com ele no xilindró...

Mas aquilo lhe causava estranheza, já que o conhecia bem, talvez bem até demais.

Há algum tempo eles tiveram um breve romance o qual ela terminara peremptoriamente, ao perceber que apesar de inteligente e levemente divertido, faltava um quê de imaginação. Mas ainda assim eles continuaram amigos e lhe agradava saber que o rapaz, na verdade, estava sob seu controle.

E ela sabia que, apesar do interesse contido que ele ainda nutria – e a ela agrava saber disso –, uma outra mulher havia aparecido na vida dele. “Não ia durar” era o que ela imaginava dada à profissão da moça e a algumas taras curiosas que ele acabou por confessar em um bar após o expediente.

Quando ela finalmente o viu, voltando de uma reunião, deu para perceber que muitos dos comentários faziam jus ao estado dele. Não, não haviam marcas no rosto – ah, a outra saberia como evita-los –, mas seu andar era vacilante, as roupas não estavam alinhadas como de costume, a cabeça não parava de verificar o estado das pontas dos próprios sapatos e eram visíveis as marcas ao redor de seus pulsos.

Preocupada ela foi até ele, tocou em seu ombro e ela pode sentir o tremor sob o tecido da camisa; sim, ele havia se assustado!

A tensão no escritório cresceu quando todos perceberam que alguém finalmente tinha tido a coragem de conversar com o rapaz, mas ninguém conseguiria ouvir a conversa dos dois. Afinal ela sabia que discrição era fundamental naquele momento.

Então baixinho ela perguntou a ele ao entregar uma xícara quente de café:

_ Ela usou as algemas novamente?

E nesse instante, mesmo sem olhar para ela, aquele leve sorriso no canto dos lábios do rapaz traiu toda a impressão de mal-estar que ele transpirava. Nesse instante, já sem mostrar o sorriso, mas com um brilho eufórico, se não histérico, nos olhos, ele confirmava com a cabeça ao responder no mesmo tom da pergunta:

_ E o cassetete também!

Então, naquele momento, apesar de aliviada, ela sabia que o havia perdido. Virou as costas com uma máscara de falsa compaixão e desalento, só para deixar o pessoal do escritório ainda mais curioso, e, no caminho até a sua mesa, sorriu para o novo estagiário da empresa.

_ Afinal – ela pensou – preciso de um novo adorador por aqui...

E sentou-se satisfeita em frente a seu computador.